Em criança, António Segadães Tavares brincava com jogos de construção. "Tinha peças em madeira e em cartão e fazia casinhas, estações, pontes". A brincadeira acabou por se transformar em profissão e por torná-lo no primeiro português a ganhar o "Nobel" da Engenharia de Estruturas, com a ampliação do aeroporto da Madeira. Existe
sempre arte na vida de António Segadães Tavares - da escultura à
pintura, da música à literatura. A beleza sempre o seduziu. A banda
sonora da sua vida poderia até ser a música erudita. E tal como ela, a
beleza e a funcionalidade marcam o compasso no seu trabalho. "Uma expressão matemática é bela e é funcional.
Tenho uma reserva quando começo a ver coisas confusas e complicadas. Se
não é belo, de certeza que não é funcional.” As formas naturais,
diz, são o exemplo mais claro da relação entre a beleza e a
funcionalidade. A engenharia deve perseguir esse objectivo: ser
funcional, segura e bela - características facilmente compatíveis,
defende Segadães Tavares, a quem foi atribuído o que é considerado o
prémio Nobel da engenharia, que receberá em Setembro de 2004. Nasceu
em Luau, Angola, em 1944. O continente africano marcou o seu modo de
vida, mas confessa que não se sente nem angolano nem português. É um
misto de dois continentes tão diferentes que se conjuga numa só
personalidade. António Segadães Tavares é um homem prático, que
adora conversar, dançar, ler, ouvir música, viajar, cozinhar para os
amigos e andar de barco.
"A
forma de estar na vida, a minha relação com os amigos, é angolana.
Gosto de conversar, de dançar e dos ritmos musicais.” Mas também
valoriza a tranquilidade. "Tenho vivido muito tempo sozinho e gosto
de ter momentos só para mim. Em casa ligo a televisão e tiro-lhe o
som, para ter imagem de fundo. Depois ponho música e leio. Esta
actividade dá-me a ilusão de ter pessoas em casa.” O tempo parece
que lhe foge entre os dedos, pois é sempre pouco para tudo o que tem de
fazer, principalmente depois de se ter tornado mais conhecido. Aos
16 anos veio estudar para Portugal e confrontou-se pela primeira vez com
a grande cidade, Lisboa. Ao avistar o porto de Alcântara, num dia
cinzento de Outubro, teve vontade de voltar para trás no mesmo barco
que o tinha trazido. Acabou por se habituar à cidade alfacinha, que
considera, agora, extremamente fotogénica e bela. Angola,
essa, nunca esqueceu. Ficou para sempre no seu coração com a força do
primeiro amor. Ao falar do país onde nasceu revela a nostalgia doce de
quem está a rever todos as cores, cheiros e horizontes do continente
quente. Comove-se ao pensar na situação em que Angola está.
"Tenho bastantes preocupações sociais e custa-me ver o que se
passa em Angola, mas a minha opção de estar em Portugal foi muito
pensada. Os meus filhos não tinham lugar na sociedade angolana.” Segadães
é uma pessoa de convicções e ideias fortes. Franco e decidido,
defende a liberdade acima de tudo. Envolveu-se desde cedo na luta pela
independência das ex-colónias, mas considera que os problemas
africanos estão longe de se resolver. "Há todo um passado histórico
de divisões em tribos, mas sinceramente não entendo isto das divisões
por cores", diz, irritado. Com
"ilusões de adolescente" matriculou-se no curso de engenharia
electrotécnica, fascinado com a era da energia atómica e com os
sistemas de navegação no espaço. Não foi um bom começo em termos
académicos. Corria o ano de 1962 quando foi decretado o luto académico.
Nessa altura participou no movimento académico, nas greves e nas
manifestações. Mais tarde envolveu-se com a corrente democrática de
cultura europeia do MPLA. Mas actualmente mantém uma certa distância
do poder. "Quando alguns dos meus amigos estão no poder eu
desapareço. Depois de saírem volto a estar com eles. Recuso-me a
procurá-los nessa altura, isso é para as ‘borboletas tontas' que
andam à volta dos políticos e eu não quero fazer parte desses”,
declara de forma determinada. As
reivindicações sobrepuseram-se ao curso de electrotécnica, e de certa
forma ajudaram a amadurecer as decisões profissionais do estudante.
Mudou-se para Coimbra para começar de novo, mas já no ramo da
engenharia civil. Em busca de uma melhor formação, parte para o Porto,
para a Faculdade de Engenharia. Terminou o curso em 1968 como melhor
aluno do ano, o que lhe valeu o Prémio da Fundação Engenheiro António
de Almeida.
No
estilo informal de quem não liga muito às etiquetas e formalidades, é
capaz de sair à rua de "jalabaya" (a túnica africana) sem o
menor problema. É considerado um pouco excêntrico por muitos,
incluindo a família. "A minha filha diz-me muitas vezes que está
na altura de eu ter juízo. E eu digo-lhe sempre que isso só acontecerá
quando eu crescer", revela por entre risos. A
carreira académica começou logo que acabou o curso. "Sempre
gostei de leccionar desde o tempo de estudante. Dava aulas mas não
cobrava porque o que gosto é de transmitir e explicar as coisas".
Foi convidado por Ferreira Borges para assistente do Instituto Superior
Técnico, em Lisboa. Mais tarde trabalhou na Faculdade de Engenharia da
Universidade de Luanda, e aí se manteve como professor mesmo durante os
confrontos do pós-25 de Abril, para assegurar que os seus alunos
acabavam o ano. "Em Outubro de 75 dou o último exame e consigo
arranjar um bilhete para essa noite. Não voltei a Luanda logo, porque a
minha casa foi saqueada.” O
gosto pela engenharia espelha-se no seu olhar e fala sempre com exemplos
muito práticos, com a sabedoria de um bom professor. Pela sua experiência
no mundo universitário Segadães Tavares sabe do que fala quando
critica o ensino e a formação dos futuros engenheiros. "Como é que um aluno que tem sete ou oito valores a matemática
consegue entrar para um curso de engenharia? Este é um curso que exige
conhecimentos de física e matemática". Estas são as duas
"ferramentas" da profissão, garante, e sem elas é impossível
interpretar um gráfico ou resolver as complicadas equações. É
o que tenta transmitir aos actuais alunos, na Universidade Nova de
Lisboa. A
actividade de Segadães Tavares como projectista remonta a 1969, com
destaque nas áreas de estruturas e fundações. Foi
o projecto de ampliação da pista do aeroporto da Madeira, no Funchal,
que lhe valeu o prémio "Outstanding Structure Award 2004" (OstrA),
atribuído pela "International Association for Bridge and
Structural Engineering" (IABSE). A cerimónia de entrega será a 22
de Setembro de 2004 em Xangai, na China. Não
foi um projecto fácil. Foi um desafio. "Cheguei a entrar em pânico.
Houve umas semanas um bocado difíceis", confessa. Fascinado pelo
desafio de encontrar soluções e conjugar o fluxo das forças na
engenharia, admite que recebeu o prémio com grande alegria. "Senti
uma satisfação interior grande, principalmente porque sempre lutei
pela qualificação da engenharia portuguesa." A vida mantém-se idêntica
depois do prémio internacional. Continua a concretizar os projectos no
seu modesto escritório em Lisboa e relativiza o protagonismo que o
"Nobel" lhe possa ter dado: "Eu estava no apeadeiro
quando passou o rápido... podia não ter sido eu, mas tive esse
vislumbre".
Mas o que distingue este projecto? Três grandes razões. Primeiro as condições de fundação do terreno, extremamente heterogéneo e com uma espécie de cavernas provocadas pela antiga actividade vulcânica da ilha. Aliás o maior gozo veio depois, na construção do tabuleiro da ponte. Os trabalhos começavam à uma da manhã, no meio da escuridão, com os holofotes acesos, a agitação dos camiões betoneiros, o barulho do mar. "A imagem que me veio na altura foi o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, exactamente como se fosse o coronel Kilgore que lidera o seu esquadrão de helicópteros ao som de Wagner e comanda um campeonato de ‘surf' mesmo com os inimigos a atacar".
A grande
dificuldade desta etapa do projecto foi construir a largura da pista por
duas fases, pois 197 metros não se podem betonar de uma só vez.
"O avanço longitudinal foi feito ao mesmo tempo do avanço
transversal. É esta conjugação que nas pontes correntes não
existe". Os
números confirmam que a matemática é essencial a um engenheiro.
Resolver qualquer situação da primeira fase da construção do
tabuleiro correspondeu à resolução de cerca de 80 mil equações,
enquanto a segunda fase, mais pequena, implicou resolver 55 mil.
"Quando era preciso resolver em conjunto as duas fases, os sistemas
chegavam a ter 135 mil equações."
A carga do avião veio somar-se a estas dificuldades. Foram feitas
simulações com camiões carregados de pesos, numa tentativa de simular
a massa de um avião dos mais pesados, como um Boeing 747-400.
“A
última fase foi no dia 1 de Abril, quando cheguei no avião que estreou
a pista". Já muitas vezes disse que não gostava de sobreviver a um possível acidente, por
vergonha e um certo orgulho. A aterragem do avião foi como que
"a prova dos nove" do êxito da sua obra. Apesar
de já acumular prémios importantes como o Secil (2001) e o Leca
(1998), diz reconhecer as suas limitações face aos "génios"
da engenharia. "O Panteão de Adriano, em Roma, do princípio do século
II, é uma das obras mais notáveis da engenharia. Eu nunca vou ter uma
obra destas", sussurra. De
entre as suas obras, tão conhecidas como o Centro Cultural de Belém ou
a pala do pavilhão de Portugal da Expo 98, ambas em Lisboa, não
consegue destacar a mais bela. "São todas minhas filhas, algumas têm
os seus defeitos, mas os meus filhos também os têm.”
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